
José de Arimatea - O Discípulo que Enterrou Jesus e Fundador da Primeira Igreja Britânica
José de Arimatea foi um membro ilustre do Sanedrín e seguidor secreto de Jesus que pediu permissão a Pilatos para enterrar o corpo de Cristo em seu próprio sepulcro novo, cumprindo assim a profecia de Isaías. Segundo tradições medievais, tornou-se o primeiro evangelizador da Grã-Bretanha.
Por Rev. Douglas Araujo
Vida e Contexto Histórico
José de Arimatea foi uma figura bíblica importante que viveu no século I d.C. em Jerusalém. Nasceu em Arimatea, uma cidade de Judá, provavelmente idêntica a Ramá, o lugar de nascimento do profeta Samuel. Era um homem rico e membro ilustre do Sanedrín, o conselho supremo dos judeus, sendo descrito como uma pessoa influente que todos conheciam e estimavam em Jerusalém.
De acordo com os evangelhos, José era um discípulo secreto de Jesus, motivado pela esperança no Reino de Deus. São Lucas o descreve como "pessoa boa e honrada", enquanto São Marcos ressalta que era um homem que "se armava de valor" para defender suas convicções. Sua condição de discípulo era clandestina, pois temia as autoridades judias, mas sua fé o levaria a um ato de coragem extraordinário.
O Enterro de Jesus
O momento mais significativo da vida de José ocorreu após a crucifixão de Jesus. Quando chegou a tarde do dia da preparação (véspera do sábado), José apresentou-se diante de Pilatos e solicitou o corpo de Jesus para enterrá-lo. Este era um ato extraordinariamente corajoso, pois significava se posicionar ao lado de um "sedicioso" contra o Império Romano, arriscando sua posição no Sanedrín e sua segurança pessoal.
Pilatos concedeu o pedido, e José, com a ajuda de Nicodemo, descravou o corpo da cruz e o envolveu em lienzos de lino (lençol de linho). Colocaram o corpo de Jesus em um sepulcro novo, recém-escavado na rocha, próximo ao Gólgota em Jerusalém, e selaram a entrada com uma grande pedra. Este sepulcro é identificado pela tradição cristã como o local onde se encontra a Basílica do Santo Sepulcro.
A ação de José cumpriu uma profecia de Isaías 53:9, pronunciada séculos antes: "E se dispôs com os ímpios sua sepultura, mas com os ricos foi em sua morte; ainda que nunca fez maldade, nem houve engano em sua boca." Esta coincidência profética confirmou para os cristãos primitivos a identidade de Jesus como o Messias.
Perseguição e Prisão
Após a ressurreição de Jesus, José foi encarcelado pelos judeus, acusado de ter subtraído o corpo do sepulcro. Segundo tradições apócrifas, foi encerrado em uma torre onde recebeu a visão do Cristo ressuscitado e revelações sobre o Mistério do Santo Grial. Textos como as Actas de Pilato (também chamado Evangelho de Nicodemo) narram que os judeus reprovaram o comportamento de José e Nicodemo a favor de Jesus, resultando em sua prisão.
A obra apócrifa Vindicta Salvatoris (século IV?) relata que José foi encontrado em uma torre onde havia sido encerrado para morrer de fome, mas foi alimentado por um "manjar celestial". Segundo esta narrativa, foi libertado milagrosamente e retornou a Arimatea, onde contou como havia sido libertado por Jesus.
Legado e Tradições Medievais
A partir do século IV, surgiram tradições legendárias que elevaram a figura de José a dimensões épicas. A mais famosa delas é a tradição britânica, que afirma que José chegou às ilhas britânicas no ano 63 d.C., estabelecendo-se em Glastonbury. Segundo Guillermo de Malmesbury em sua obra Hechos de Los Reyes Ingleses, José fundou a primeira igreja britânica, consagrada à Virgem Maria.
Outras tradições afirmam que José era um mercador de estanho que possuía negócios na Grã-Bretanha, o que explicaria sua riqueza e sua presença posterior naquelas terras. Algumas lendas medievais até sugerem que José teria levado o jovem Jesus em uma viagem de negócios à Inglaterra antes de seu ministério público, explicando assim os "anos perdidos" de Jesus.
Em Glastonbury, a lenda relata que enquanto José dormia, seu báculo echó raíces e floresceu, marcando o local sagrado. A Glastonbury Abbey tornou-se um importante centro de peregrinação até sua dissolução durante a Reforma em 1539. Mais tarde, surgiram tradições que identificavam Glastonbury como o local da tumba do Rei Artur e da Rainha Genebra.
Na França, uma lenda do século IX refere que o patriarca Fortunato de Jerusalém, nos tempos de Carlos Magno, fugiu para o Ocidente levando os ossos de José de Arimatea até o mosteiro de Moyenmoutier, onde se tornou abade.
Padroado e Veneração
A tradição católica reconhece José de Arimatea como patrono dos embalsamadores e sepultureros, em razão de seu papel no enterro de Jesus. Sua figura também está associada às lendas do Santo Grial, sendo frequentemente retratado como guardião deste objeto sagrado nas narrativas medievais.
José de Arimatea é protagonista da apócrifa Declaração de José de Arimatea, escrita em primeira pessoa, na qual se reivindica como responsável pelo descendimento e enterro de Cristo. Neste documento aparecem os nomes dos dois ladrões crucificados com Jesus: Dimas e Gestas.
Historicidade
Do ponto de vista histórico, estudiosos concordam que José de Arimatea foi uma figura histórica real, embora os detalhes de sua vida além do enterro de Jesus sejam amplamente lendários. Seu papel no Sanedrín é atestado pelos evangelhos canônicos, e sua ação de pedir o corpo de Jesus é considerada historicamente verossímil, pois há registros de exceções romanas à prática de negar corpos de condenados por crimes de lesa-majestade.
Alguns estudiosos sugerem que José pode ter sido um funcionário do Sanedrín encarregado de enterrar pessoas que morriam em Jerusalém durante as festas, em vez de um membro pleno do conselho. Independentemente desta questão, seu papel fundamental no cumprimento das profecias messiânicas e na história da Igreja primitiva permanece incontestável.
Nascimento
Data: c. século I d.C.
Local: Arimatea, cidade de Judá (atual Rentis, aproximadamente 10 km a nordeste de Lida)
Festa Litúrgica
31 de agosto
Padroado
- Embalsamadores
- Sepultureros
- Coveiros
Livros Recomendados
Para aprofundar seu conhecimento sobre esta pessoa, recomendamos:
- The Gospel of Nicodemus (Actas de Pilato) - Autor desconhecido (apócrifo) (c. século IV d.C.)
Texto apócrifo que narra a prisão de José de Arimatea e sua libertação milagrosa após a ressurreição de Jesus - Vindicta Salvatoris - Autor desconhecido (c. século IV d.C.)
Obra apócrifa que relata a história de José sendo encontrado em uma torre e alimentado por um manjar celestial - Gesta Regum Anglorum (Hechos de Los Reyes Ingleses) - Guillermo de Malmesbury (c. século XII d.C.)
Fonte medieval que narra a chegada de José de Arimatea à Grã-Bretanha e a fundação da primeira igreja britânica em Glastonbury
Fontes e Referências
Este artigo foi elaborado com base nas seguintes fontes:
- José de Arimatea - Wikipedia, la enciclopedia libre (website)
Enciclopédia com informações sobre vida, enterro de Jesus, tradições britânicas e lendas medievais - José de Arimatea - Enciclopedia de la Historia del Mundo (website)
Fonte acadêmica sobre identidade histórica, papel no Sanedrín e tradições britânicas - San José de Arimatea (website)
Perspectiva católica sobre a vida e papel de José no enterro de Jesus - ¿Quién fue José de Arimatea? (website)
Análise detalhada sobre dados históricos, tradições legendárias e textos apócrifos - José de Arimatea: En qué sentido puede ser histórico este personaje - Antonio Piñero (website)
Análise crítica sobre a historicidade de José e interpretações acadêmicas de seu papel - ¿Quién era José de Arimatea? (website)
Perspectiva evangélica sobre a vida de José e cumprimento de profecia - San José de Arimatea (website)
Informações sobre origem, status social e papel no Sanedrín - ss. José de Arimatea y Nicodemo, discípulos del Señor (website)
Fonte do Vaticano sobre a vida e importância de José de Arimatea