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Retrato histórico e ilustrações de visões místicas de Hildegarda de Bingen, incluindo representações medievais da santa.
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Hildegarda de Bingen - Abadesa Mística, Polímata e Doutora da Igreja

Hildegarda de Bingen (1098-1179) foi uma abadesa beneditina alemã, mística, teóloga, compositora, médica e naturalista que se destacou como uma das figuras mais polifacéticas da Idade Média, desafiando as limitações impostas às mulheres de sua época através de suas visões, escritos teológicos e contribuições científicas.

Por Rev. Douglas Araujo

Vida e Formação

Hildegarda de Bingen nasceu no verão de 1098 em Bermersheim, no vale do Reno, na região de Renânia-Palatinado, na Alemanha medieval. Filha de uma família aristocrática, sendo a menor de dez filhos, foi destinada desde jovem à vida religiosa, conforme era costume da época para filhas mais jovens de famílias nobres.

Ingressou no convento de Disibodenberg, onde recebeu educação religiosa e intelectual sob a orientação de Jutta, uma mestra espiritual que reconheceu seu talento excepcional. Em 1136, após a morte de Jutta, Hildegarda foi eleita magistra (madre superiora) do convento, posição que ocuparia com grande distinção.

Vida Contemplativa e Visões Místicas

Em 1141, aos quarenta e dois anos, Hildegarda experimentou um episódio intenso de visões que marcaria o rumo de sua vida. Recebeu o que considerava uma ordem sobrenatural para registrar por escrito as visões que teria a partir de então. Inicialmente hesitante, consultou São Bernardo de Claraval, um dos grandes doutores da Igreja, que a encorajou a prosseguir com seus escritos.

Durante sua permanência em Disibodenberg, Hildegarda praticava o que hoje se conhece como curação holística, utilizando energias espirituais ressonantes e remédios naturais para manter a saúde e curar doenças e lesões. Essa abordagem integradora da espiritualidade e da medicina natural seria uma marca característica de seu pensamento.

Obras Teológicas Principais

Entre 1141 e 1151, Hildegarda completou sua primeira grande obra, o Scivias (também conhecido como Scire vías Domini ou Conhece os Caminhos), um tratado teológico baseado em suas visões místicas. Esta obra foi acompanhada pelo texto moral Ordo Virtutum e pela Sinfonía del Cielo, uma de suas primeiras composições musicais.

Entre 1151 e 1158, Hildegarda dedicou-se à redação de suas obras médicas sob o título único Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum (Livro sobre as propriedades naturais das coisas criadas). Posteriormente, no século XIII, este trabalho foi dividido em dois textos: Physica (também conhecido como Liber simplicis medicinae - Livro da Medicina Simples), uma história natural em nove livros, e Causae et Curae (também conhecido como Liber compositae medicinae - Livro da Medicina Complexa), onde expôs seus conhecimentos sobre o corpo humano e formas de curá-lo.

Entre 1158 e 1163, escreveu o Liber Vitae Meritorum (Livro dos Méritos da Vida), que ampliava e desenvolvia temas de sua obra anterior, tratando da luta da alma entre a virtude e o vício, a verdadeira natureza e a recompensa final de ambas, e a imanência da presença e do amor redentor de Deus.

Entre 1163 e 1173-1174, Hildegarda redigiu sua grande obra teológica, o Liber Divinorum Operum (Livro das Obras Divinas), que recolhia os temas de suas obras anteriores e os elevava através de suas novas visões e explicações sobre a natureza do amor divino (Caritas) e da sabedoria divina (Sapientia), representados como energias femininas que irradiam luz.

Fundação de Mosteiros e Ministério Pastoral

Em 1147, Hildegarda deixou Disibodenberg e se trasladou para Rupertsberg com dezoito monjas, onde o conde Bernardo de Hildesheim lhes doou terras. Neste novo mosteiro, Hildegarda foi particularmente prolífica em suas atividades intelectuais e espirituais.

Em 1165, fundou um segundo mosteiro em Eibingen, que visitava regularmente duas vezes por semana. Esta fundação demonstra sua capacidade de liderança e seu compromisso com a expansão da vida religiosa contemplativa.

Viagens de Pregação

Notavelmente para uma mulher medieval, Hildegarda realizou quatro viagens de pregação, atividade extraordinária para seu gênero e época:

  • Primeira viagem (1158-1159): viajou a Maguncia e Wurzburgo
  • Segunda viagem (1160): viajou a Tréveris e Metz
  • Terceira viagem (1161-1163): viajou pelo Reno até Colônia
  • Quarta viagem (1170-1171): pregou na região da Suábia

Estas jornadas de pregação causavam grande admiração e controvérsia, pois era altamente incomum uma mulher, especialmente uma abadesa, viajar publicamente para pregar. Hildegarda desafiava as limitações patriarcais da Igreja medieval, embora respeitasse suas restrições formais.

Contribuições Musicais e Linguísticas

Hildegarda foi também uma compositora notável. Compôs os cantos titulados Symphonia armonie celestium revelationum (Sinfonia da Harmonia das Revelações Celestiais), elaborados para as necessidades litúrgicas de sua comunidade monástica.

Por volta de 1150, criou a Lingua Ignota (Língua Desconhecida), um sistema linguístico único composto por aproximadamente mil palavras e um alfabeto de vinte e três letras (Litterae Ignotae). Esta criação linguística demonstra sua genialidade intelectual e sua capacidade inovadora.

Legado e Reconhecimento

Hildegarda de Bingen é considerada uma das mulheres mais extraordinárias da Idade Média. Seus contemporâneos a reconheciam como mística, teóloga, profetisa, escritora de obras teológicas e médicas, compositora, filósofa, cientista, naturalista e líder monacal. Ela é frequentemente descrita como a primeira bióloga alemã, a primeira médica e uma das primeiras feministas.

Seu conceito de Viriditas (verdor ou verdejante), a força vital que permeia toda a criação, tornou-se central em seu pensamento filosófico e teológico. Esta noção integradora da espiritualidade com a natureza e a medicina reflete uma visão holística notavelmente avançada para sua época.

Hildegarda faleceu em 17 de setembro de 1179, no Mosteiro de Rupertsberg, aos oitenta e um anos, deixando um legado intelectual, espiritual e científico que transcendeu sua época e continua influenciando estudiosos, teólogos, músicos e cientistas até os dias atuais.

Nascimento

Data: verão de 1098 (16 de setembro de 1098)
Local: Bermersheim, vale do Reno, Renânia-Palatinado, Sacro Império Romano Germânico (atual Alemanha)

Falecimento

Data: 17 de setembro de 1179
Local: Mosteiro de Rupertsberg

Festa Litúrgica

17 de setembro

Padroado

  • Naturalistas
  • Médicos
  • Compositores
  • Mulheres intelectuais

Obras Escritas

  • Scivias (Conhece os Caminhos) (1141-1151) - Tratado teológico baseado em visões místicas, acompanhado pelo texto moral Ordo Virtutum e pela Sinfonía del Cielo
  • Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum (Livro sobre as propriedades naturais das coisas criadas) (1151-1158) - Obra médica posteriormente dividida em Physica (História Natural) e Causae et Curae (Problemas e Remedios)
  • Liber Vitae Meritorum (Livro dos Méritos da Vida) (1158-1163) - Obra que trata da luta da alma entre virtude e vício, e da presença do amor redentor de Deus
  • Liber Divinorum Operum (Livro das Obras Divinas) (1163-1173/1174) - Grande obra teológica que explora a natureza do amor divino (Caritas) e da sabedoria divina (Sapientia)
  • Symphonia armonie celestium revelationum (Sinfonia da Harmonia das Revelações Celestiais) (c. 1150 em diante) - Composições musicais litúrgicas para a comunidade monástica
  • Lingua Ignota (Língua Desconhecida) (c. 1150) - Sistema linguístico único com aproximadamente mil palavras e alfabeto de vinte e três letras

Livros Recomendados

Para aprofundar seu conhecimento sobre esta pessoa, recomendamos:

  • Hildegarda de Bingen: Mística, Ciência e Medicina na Idade Média - Diversos autores
    Análise acadêmica das contribuições científicas e médicas de Hildegarda em contexto medieval

Fontes e Referências

Este artigo foi elaborado com base nas seguintes fontes: